ABACAXI ATÔMICO

Música de protesto, e como

04/09/2006

Mil perdões pela demora em atualizar, eu estava me sentindo miserável. Aos poucos vou retomar meu estado natural de espírito. Em breve, devo estar só pessimista como sempre.

Vamos à vaca fria.

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A briga entre facções do funk de apartamento quase chegou às vias jurídicas quando, na última semana ou algo assim – prazos não importam muito quando sua coluna é irregular –, integrantes do trio curitibano Bonde das Impostora ensaiaram uma interpelação judicial ao duo de Minas Gerais U.D.R.. O motivo foi blog criado pelos U.D.R.’s com o nada sutil título de “As curitibanas mais safadas”, que por um tempo hospedou montagens feitas pelos fãs do U.D.R. com fotos dos integrantes do BDI. A música homônima também pesou.

Até onde se sabe, a história é mais ou menos a seguinte: no começo, havia “Satanás Aplaude (Pauno Kuda UDR)”, música feita pelo Bonde sobre o U.D.R.. A letra é essa. A réplica do U.D.R. veio meses depois na forma de “As curitibanas mais safadas”, música e blog hoje semi-extintos, a não ser pra quem manja um pouco mais de fuçação internética. Até pro Diplo sobrou (o que eu particularmente comemorei, mas evitemos entrar nesse mérito).

A tréplica do Bonde das Impostora, “Pauno Kuda UDR 2”, eu não ouvi nem consegui achar a letra em lugar algum. Pouco depois disso é que o BDI apareceu com o tal pedido de retratação e retificação do U.D.R. que também continha pedido público de desculpas do Bonde. No ofício eletrônico, apócrifo e recheado de jargões jurídicos, a banda alega que a resposta do U.D.R. foi desproporcional ao ataque originalmente feito pelas Impostora (essa desconcordância angustia mais alguém além de mim?), já que mãe e pai foram botados no meio da confusão, além do tal blog. O texto também acenava com eventual processo por injúria e difamação contra o U.D.R. e estabelecia prazo de até 48 horas pra retirada do ar de tudo que fosse relacionado ao imbróglio (mp3’s e site).

É aqui que estamos agora. O ABACAXI bem que tentou ouvir os dois lados da história. Na última quinta-feira, e-mail foi enviado ao Professor Aquaplay, do U.D.R., e a dois integrantes do BDI, que no fim do mês passado estavam com turnê marcada pros gringos. Foram enviadas perguntas comuns às duas bandas e específicas para cada uma.

Até a madrugada de segunda pra terça, somente o Aquaplay respondeu. Pelo tom das respostas, dá pra sentir que a guerra não terminou e que forjar briga de mentirinha dá tão certo quanto brincadeira de mão. Segue a entrevista com o mano:

(perguntas para as duas bandas)

ABACAXI ATÔMICO: O que rolou, afinal?

Professor Aquaplay: Forjamos uma briga pra aquecer tamborins. O pontapé inicial foi deles, achamos legal. Demoramos, mas respondemos brutalmente (conforme avisado). Co-responderam meia-bomba e era pra ter ficado por isso mesmo. Depois foi simplesmente “what the fuck?”. Simples assim.

AA: É inegável que há hoje uma rivalidade entre as duas bandas. Como eram as coisas antes de “Pauno Kuda UDR” e tudo o mais que veio depois?

Aquaplay: Ignorávamos uns aos outros harmonicamente.

AA: Por um momento, faça de conta que nada disso existiu. Qual seria sua opinião sincera sobre a outra banda?

Aquaplay: Eu não tenho saco pra ouvir meu som, que eu mesmo faço… quem dirá meu som feito pelos outros?

AA: Sabe dizer se o Diplo tomou conhecimento de que foi mandado tomar no cu? Ele chegou a falar/fazer algo a respeito?

Aquaplay: Não sei dizer.

AA: Qual tem sido a reação dos fãs ao episódio?

Aquaplay: Todos achando lindo, cada um do lado que mais lhe convém.

(perguntas para o U.D.R.)

AA: Como vocês ficam por eles terem contrato e tocarem nos gringos e vocês não?

Aquaplay: Artisticamente longevos.

AA: Ainda rola um medão de tomar um processo nas costas?

Aquaplay: Nosso maior medo é de que não nos tornemos lordes bestiais no crepúsculo da aurora equinóstica de outono. Tememos que nosso nefasto pai lucifuge nos abandone à própria sorte em meio à terceira batalha angelical de Berkayal sem a sabedoria infinita contida sob a asas celestiais de Nuit. Em suma, posso citar uma frase de Oleg T. Poikoff: “A única coisa que a UDR deve temer é a própria UDR. Processa meu pau de boi”. Também temos medo de crianças gordinhas.

AA: Vocês têm tocado “As curitibanas mais safadas” ao vivo? Há essa intenção?

Aquaplay: Tocamos uma vez, aqui em BH, antes do processo. Não sei se tocaremos de novo porque a mixagem pra cantar ao vivo ficou meio troncha.

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Fica aberto o espaço pro Bonde das Impostora se pronunciar.

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Obituário: morreu semana passada aos 37 anos, na Holanda, Jesse Pintado, ex-guitarrista do Napalm Death. A causa da morte não foi divulgada, embora o comentário extra-oficial fale em coma decorrente de diabete. Jesse tinha acabado de retomar as atividades do Terrorizer, que lançou mês passado Darker Days Ahead, segundo disco da banda. O primeiro, World Downfall, é um dos primeiros discos de grindcore, e até hoje é considerado uma influência. Foi a partir dele que o Terrorizer exportou integrantes pra outras duas bandas, o próprio Napalm (onde Jesse ficou até 2004) e o Morbid Angel.

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Algumas bandas cujos discos devem ser lançados mais em breve do que você consegue soletrar “indeferimento do mandado de segurança”:

Nacionais

Are you God?, Ludovic (na quinta, show de lançamento do novo disco, Idioma Morto) e Shed (cuja pré-mix me caiu na mão e é o disco mais legal deles que eu ouvi).

Gringas

The Haunted

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Recomendações de downloads:

Xnoybis – com um nome inspirado em uma das melhores músicas de um dos melhores álbuns do Godflesh, dá pra imaginar o que esperar. É Godflesh com Neurosis e os clones deles (Isis, Cult of Luna, etc). A demo – que estava disponível no site oficial, mas por enquanto está fora do ar – era divertida. Não ouvi o disco novo.

Barefiles: vários links pra sets de grime e dubstep. Pra aficionados por raggamuffin ou novatos ao gênero (eu incluso).

Fuzzly: stoner rock fodão. Pense em Kyuss da era de ouro e depois multiplique a sensação por dez. Daria um pau servido no Qotsa e roubaria fácil a namorada do Josh Homme.

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Alguns dos lançamentos mais relevantes que têm tocado por aqui:

Zoroaster: meia hora dividida em quatro músicas (e um bônus) de pura invocação lisérgica cervejeiro-depressiva. Eu devia estar disperso ou burro quando ouvi isso pela primeira vez pra ter negligenciado essa demo. É doom com uma levada sludge/stoner, algo entre o Melvins do Lysol e o Hellhammer/Celtic Frost. As músicas foram gravadas em fita(!) em 48 horas e mixadas em um dia, e o resultado é que os vocais ficaram escondidos na mixagem, mas nada que chegue a níveis blackmetaleiros de inaudibilidade. A arte é PB e retrata o ataque de um navio a uma lula gigante ou algum outro cefalópode cujo gênero eu desconheço. Uma referência a Melville e ao som monolítico da banda, talvez? Se Ismael aderisse ao Zoroasterismo (sic), escreveria uns três capítulos sobre essa banda. (importado - Battle Kommand Records)

Mp3: “Bullwhip”

Skyforger – Kauja Pie Saules: quando eu li que a definição de estilo dessa banda é pagan metal, meu primeiro impulso foi de rir e o segundo foi de ignorar os caras. Afinal, paganismo no metal? Soava como trilha sonora do Livro de ouro da mitologia demais pra mim. O tédio com a música que eu escutava me fez dar uma chance pra banda, e rapaz, não é que não é de todo ruim? Depois de uma introdução meio ludibriosa, entra um black metal animadão, com riffs de speed metal, vocais à la Immortal/Bathory/Popeye e uma produção limpa. A proposta da banda é misturar música folk báltica com black metal e thrash oitentista, e o pior é que funciona. Às vezes, tem flauta, coro e outras excentricidades, mas em geral o som não fica descaracterizado. Se for ver, o Skyfoger é até mais consistente que o tal Storm, que parecia banda de marchinhas hooligans norueguesas. Quem não for fã de black mais cabeça, do qual o Ulver um dia fez parte e pra onde está indo o Enslaved, vai achar Kauja Pie Saules uma merda. (importado – Paragon Records)

Mp3: “Kauja Pie saules. 1236.” (“The Battle of Saules”)

Lair of the Minotaur – The Ultimate Destroyer: Fica difícil não babar o ovo da Southern Lord enquanto eles lançarem discos como esse. Membros do Venom encontram Unleashed e Slayer pra uma pulada de cerca dirigida pelo Rick Rubin. Blasfêmico! Na comparação com o disco anterior, Carnage, foram-se embora as partes rápidas. No máximo, rola uma velocidade de South of Heaven (“Behead the gorgon” é particularmente exemplar disso). Agora, a prioridade é peso, mais que uma bola de demolição num show do AC/DC, e com mais bolas e ameaça que uma piscina do McDonald’s com cobra dentro. Os dois vocais são bons, em especial o principal, que lembra bastante Unleashed. O baixo dá uma desaparecida de leve e é apenas ‘sentido’ nas partes em que a guitarra dá aquelas cavalgadas mas, fora isso, a produção é das melhores. Apesar disso, há uma crítica séria, e só por isso o disco não vale um Corra Atrás: é que salvo talvez a faixa-título, o disco não tem um riff memorável. Porém, em defesa da banda, cabe perguntar: qual banda do período pós-Dillingerescapeplanozóico tem? É o disco de thrash metal do ano, se o novo do The Haunted for farofa. (importado – Southern Lord)

Mp3’s

Por ora, é isso.



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