ABACAXI ATÔMICO

Digressões sobre o hype e algo sobre um filme aí

20/01/2008

Parece que o patrão anda meio preguiçoso ou sem 20 reais pra torrar com uma entrada nos cineplex da vida. Nesse caso, sobrou pra mim recomendar o filme da semana: O Caçador de Pipas, inspirado no último livro em voga sobre o Oriente Médio.

É uma resenha que não é resenha. Como eu me sinto angustiado quando vejo o auê e filmes/coisas com auê, seria meio contra-senso escrever algo detonando ou levantando demais o filme, do tipo “veja e saia revolucionado” ou “é muito repetitivo; toda cena tem um diálogo”. Vou tentar ser meio imparcial, e, se não rolar, oh bem, é uma grande pena.

Então, boralá. Confesso que não li o original, então não posso nem comparar filme e livro (muito embora se eu usar o lugar-comum de dizer que o livro é muito melhor, provavelmente ninguém vai sacar que eu não li.  Enfim).

Falando do que eu não gostei primeiro: pro meu grau de interesse, o filme podia explorar mais o lance do talebãzismo, me pareceu muito pouca coisa. Comparado ao resto do destaque dado no enredo às outras partes da história, achei que ficou pequeno pros barbudinhos.

Apesar dessa ressalva, tem uma cena de apedrejamento tão clichê quanto foda pra caralho, que todo mundo que não fechou o olho durante o açoitamento do Cristo do Mel Gibson devia ver. Mas Pipas, por outro lado, não dá nem tempo de odiar os talebãs como os antagonistas do J.C. no filme do Mel (salvo se você já sabe qual o lance dos caras). É mais fácil você ficar puto com os russos, e isso é uma piada interna que só vendo o filme - ou lendo o livro, eu presumo - pra sacar.

Na essência, apesar do(s) conflito(s) que ilustra, Pipas é um filme tranqüilo, ainda que às vezes previsível. Belos cenários, diálogos não-batidos, reviravoltas mil, umas perseguições de pipa filmadas do ponto de vista das próprias (divertido se você curte esse tipo de piração) e músicas legais (Alberto Iglesias é o nome do compositor da trilha; as lojas virtuais daqui que têm o CD à venda informam pouco ou nada sobre se são as músicas dele ou se é uma trilha orquestrada).

Meu momento de autodefesa: vi esse filme hoje, mas continuo resistente a essa onda pós-Cabul. Acho que o hype nubla meu julgamento a respeito da qualidade do conjunto da parada toda (por exemplo, as coisas do Dan Brown e os filmes-’documentários’ sobre seitas secretas não me empolgaram nada). Soa como mentalidade de rebanho pra mim, e eu desanimo.

Na verdade, a única coisa na linha “o mundo ocidental vê o Oriente” que me caiu na mão foi A Princesa, história (dã) duma princesa, mas isso já faz um tempinho (saiu até uma seqüência, que eu não li). Achava que essa moda tivesse morrido, mas o resto do mundo me enganou.

Quanto tempo mais até as cabeças pensantes de Hollywood acharem que é boa idéia um remake de Ali Babá e os 40 Ladrões com explosões, perseguições de camelo pela São Francisco das Arábias e Will Smith* dividindo a cena com Paris Hilton? Duvido que Alá não tacava um raio na cabeça desse povo. Pra parafrasear outra sensação do momento (ou já passou?), cito o Capitão Nascimento, que diria “merecido”, se ele próprio não fosse o novo(?) ícone cult.

Não sei como faz pra pôr aqui aquela escala de Abacaxis do site, mas eu dava nota 7 (de 0 a 10) pro filme. Quatro pelo roteiro, mais três pela música e fotografia e menos três pelo oportunismo da produção. Deixa o livro esfriar pelo menos, pô!

*P.S.: Era pra eu assistir Eu Sou a Lenda, por sinal, mas faltou estômago. Alguém viu? A versão com o Vincent Price (aqui, com o título Mortos que Matam) é  boaça. O livro que pariu os remakes eu tô pra ler faz um tempinho, mas a fila dos ‘pra ler’ não anda.



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