ABACAXI ATÔMICO

O Gângster

27/01/2008

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Não vai ser dessa vez que Ridley Scott (Alien, Blade Runner) vai ganhar o Oscar. Os indicados saíram terça-feira passada e este seu mais recente filme, O Gângster, não recebeu nenhuma das principais e mais cobiçadas indicações. Ficou meio a ver navios. O curioso é que muitos listavam esta produção entre as favoritas, por ter feito um enorme sucesso de bilheteria nos Estados Unidos.

O filme narra a trajetória de Frank Lucas (Denzel Washington), traficante líder de vendas no mercado norte-americano de drogas que chegou lá com uma idéia digna de um grande empreendedor: eliminou os intermediários e conseguiu o produto direto do fornecedor e com a ajuda - pasmem - de militares do exército norte-americano que lutavam no Vietnã do Sul. Eram justamente esses bravos defensores da pátria que traziam o bagulho para a América.

Frank Lucas é gente que faz. Além de erguer um império financeiro com a venda de heroína e passar um bom tempo na dele, discreto, sem levantar suspeitas de ninguém, o cara ainda fazia caridade para os pobres do Harlem que não tinham Bolsa Família e ajudava a família inteira dando empregos para todos. Nada muito diferente que o PT não faça. Bem, deixa quieto. O fato é que, como em um bom filme de mocinho-bandido, há um poliça em seu encalço, o gladiador Richie (”Menina veneno, o mundo é pequeno demais pra nós doooooooooois…”) Roberts (Russell Crowe). E como em todo bom filme de bandido-mocinho, o Richie (”Menina veneno, o mundo é pequeno demais pra nós doooooooooois…”) é um poliça honesto, incorruptível, ético, cumpridor de seus deveres. O sujeito é capaz de devolver um milhão de dólares em cash encontrados no porta malas de um carro. Como ninguém é perfeito, Richie (”Menina veneno, o mundo é pequeno demais pra nós doooooooooois…”) cultiva uma enorme plantação de chifres na cabecinha de sua esposa Laurie (Carla Gugino, nham, nham, nham, que esteve nos recentes Uma Noite no Museu e Sin Citylembram ela de calcinha diante do espelho?). A moça não agüenta hômi cafageste e pede o divórcio.

Temos aqui um paradoxo que vai conduzindo a narrativa: Frank Lucas é traficante, mexe com tóchico, pega a cabeça do irmão e bate forte contra o volante do carro, dá tiro na cabeça de inimigo no meio da rua pra todo mundo ver que é macho. Mas o cara é super família, respeita e escuta a mamãe, e é o maridão perfeito para a esposa, a miss Puerto Rico Eva (Lymari Nadal). Ou seja: é o bandidão gente boa, correto, família, que abomina ostentação. Seria um empresário perfeito dentro dos moldes do “american way of life”, não fosse o pequeno detalhe de ser um traficante homicida.

Já o poliça Richie (”Menina veneno, o mundo é pequeno demais pra nós doooooooooois…”) é um canalha. Não está nem aí para o filho, trata as mulheres com visível desprezo e desinteresse. Então, fica mais ou menos assim: o crime compensa para quem é gente boa. A identificação do público é bem maior para com o bandido que para o mocinho. A cena do tribunal em que Laurie dá um pito no ex-marido já diz bem o espírito do filme.

De qualquer maneira, o principal problema de O Gângster é não saber direito o que fazer com seus 157 minutos de projeção. O filme custa a engrenar, não trilha o caminho de aprofundar os conflitos emocionais dos protagonistas, nem mesmo explora as desavenças familiares, fica tudo superficial. Mas também não enfatiza o escândalo do transporte de drogas por militares norte-americanos que lutavam no Vietnã. Este aspecto da história é apenas mencionado, sendo que seria de longe o mais interessante de toda a trama.

Sendo assim, não apresenta nenhuma novidade. Trata-se do bandido boa pinta cuidadoso perseguido pelo mocinho cafageste pra lá de esperto. E o que acontece? O bandido se dá mal graças a um pequeno descuido. Tem os poliça corrupto - que parecem saídos de um episódio do Hermes e Renato. Tem uma ambigüidade sempre presente: o crime não compensa, mas você se diverte pacas. Passa 15 anos na cadeia, mas depois vende suas memórias para um estúdio de Róliudi e garante uma aposentadoria tranqüila. Bem, pelo menos se você for um poliça honesto como o Richie (”Menina veneno, o mundo é pequeno demais pra nós doooooooooois…”), é capaz de comer um monte de mulher gostosa. Menas mal.

Previsível, o filme tem boas cenas de ação e prende o interesse do espectador. Mas poderia ser mais curto, sem dúvida. Temos uma bela produção, destacando-se a direção de arte, que recria fielmente ambientes tão diversos quanto o Harlem dos anos 70, a luta de boxe entre Muhammad Ali e Joe Frazier em um Madison Square Garden lotado e um campo de ópio no Vietnã do Sul. Ficou realmente bacana e mereceu a indicação ao Oscar que obteve.

O filme merece ser visto também pelo seu competente e afinado elenco. Dos já citados, todos estão bem, mas quem se destaca é a veterana Ruby Dee (que esteve em Faça a Coisa Certa e Febre da Selva, ambos de Spike Lee),  que recebeu a outra indicação do filme ao Oscar, como melhor atriz coadjuvante - a primeira indicação de sua longa carreira.

Talvez o público tenha gostado tanto porque o bandido é cool e o mocinho é um cafageste. Mas é um filme de mocinho bandido convencional, extremamente bem realizado, com bons atores, produção caprichada, história bem contada. Convence, embora não empolgue.

PS: Confira aqui entrevista da Folha com o diretor Ridley Scott.

Avaliação: 2.gif

Ficha ténica:

American Gangster. EUA, 2007. Direção de Ridley Scott. Com Denzel Washington, Russell Crowe, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin, Lymari Nadal, Ted Levine, Roger Guenveur Smith, John Hawkes, RZA, Yul Vazquez, Malcolm Goodwin, Ruby Dee, Ruben Santiago-Hudson, Carla Gugino. Cor, 157 min.

Site oficial: http://www.americangangster.net/
Site oficial (Brasil): http://www.ogangster.com.br/
Site IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0765429/



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